Hana - Quantos Anos - Key Sawao

Tatsumi Hijigata: “O corpo é um receptáculo onde se deposita um objeto técnico chamado desejo”.

Ontem, hoje e depois

Um corpo no espaço. Ensaia gestos, encolhe-se, expande-se e torna-se maior do que é. Esse corpo não é isento de intenção, está entregue às memórias que guarda e aos movimentos do instante, a um passo de serem memórias: o tempo presente em transformação. No espaço de poucos metros quadrados, Key Sawao fita concentradamente a platéia que se divide em silêncio entre as duas fileiras de cadeiras, simetricamente dispostas e muito próximas da artista. Toma um dos lados do palco. Está encostada em uma parede. Seus olhos exibem uma fina camada de líquido ancestral brilhante. Mal piscam. É o início de Hana (Quantos Anos?), solo de dança contemporânea com criação e interpretação de Key Sawao e co-direção de Ricardo Iazzetta, em cartaz no mês de outubro no SESC Pinheiros.

A entrevista

Chego ao prédio do SESC Pinheiros, local da entrevista com a Key, com alguns minutos de antecedência. O Gu, também do Zinnerama, vai comigo. Sua missão é me ajudar a manejar a máquina fotográfica. O que acontece é que essa que vos fala não é muito íntima de engenhocas cheias de botões, alavancas e luzinhas. Um dia, quem sabe, será.

Acompanhados da assessoria de imprensa, subimos as escadas até o 2° andar do prédio, na Sala de Oficinas. Será lá a apresentação. Logo avistamos Key. Uma figura delicada e pequena, com traços orientais. Veste roupas negras e sapatos confortáveis, assim como o figurino do espetáculo, e dá instruções à equipe de montagem. Nos apresentamos. Ela sorri e topa começar a entrevista na hora. “Quanto antes começarmos, melhor”. Dali a apenas uma hora e meia se apresentaria. Alguns artistas apreciam alguns minutos de preparação e concentração antes de entrarem no palco, com ela não deve ser diferente.

Tiramos da mochila e mostramos a ela a câmera que usaremos para captar imagens durante a apresentação. Queremos nos certificar de que o click dela é silencioso o suficiente para não atrapalhar sua concentração em cena e nem a concentração dos espectadores. Motivo: Alguns números acontecem no total silêncio. Fazemos alguns testes. Key acena afirmativamente com a cabeça e sorri mais uma vez. A câmera é boa e discreta. Fantástico! Teremos fotos!

Sentamos nas cadeiras da platéia, ainda vazia. Enquanto os técnicos acertam os últimos detalhes de luz e som, conversamos sobre a criação e também sobre a criatura. Ela começa dizendo: “Hana (pronuncia-se Haná) quer dizer “flor” em japonês e também era o nome da minha avó paterna. É um trabalho que tem a ver com a história da ancestralidade e da imigração, real ou imaginária. De estar perto e longe dos lugares. Trabalhei durante um bom tempo com um diretor japonês chamado Takao Kusuno, que introduziu a linguagem do butô no Brasil, na Companhia Tamanduá de Dança e Teatro. Nessa apresentação, há grande influência da maneira com a qual ele trabalhava essa linguagem e de como iam surgindo os elementos do espetáculo”.

Depois de algumas pesquisas, constato que o butô não é propriamente uma técnica. Está mais para Filosofia. Baseia-se muito na intenção espontânea do corpo em dado momento. Pressupõe que o corpo seja esvaziado de referências culturais para que se entregue totalmente à transformação. Comento: “O butô geralmente representa temas como morte e nascimento, questões grandiosas na vida de uma pessoa”.

E Key complementa: “Lida bastante com idéia de ciclos de transformação, nascimento e morte. Podem ser até nascimentos e mortes que acontecem, inclusive, durante a vida. Esse trabalho não é necessariamente de butô, mas há influências bastante fortes dessa linguagem. Nossa formação é bem diversa, unimos também muitos elementos da dança contemporânea. Nesse caso, em particular, a presença do butô é grande, tanto pelo tema que abordo, quanto pelo processo pelo qual passamos”.

Sempre me intrigou o modo como os bailarinos são instigados a, de certa forma, se despir de sua memória e hábitos corporais, de modo a transformar sua relação com o espaço, com o intuito de abrigar, tanto em instância física, quanto psicológica, uma determinada proposta artística. Sendo assim, pergunto: “Como foi o processo de pesquisa de movimento para esse espetáculo?” Key reflete um pouco, mas, enfim, alivia minha dúvida: “Por não ser uma técnica, cada pessoa que trabalha com o butô, o faz de forma diferente. Nesse trabalho, utilizei-me de imagens e memórias ancestrais. Algumas imaginárias. Minha avó veio do Japão para o Brasil e nunca voltou para lá novamente. Nem para visitar. Em algumas cenas, sinalizo uma possível volta. É uma memória dessa saudade dela, que não sei até onde vai, e do lugar em que ela vivia no Japão. É a junção do imaginário com a memória. É um mergulho bastante livre na ancestralidade. Ele segue um roteiro e uma dramaturgia, mas não há uma coreografia predeterminada. Não há absolutamente nada marcado em termos de atmosfera de cada cena, tom ou dinâmica. Apesar de não ser completamente diferente, a cada apresentação há uma nova coreografia, sem um vocabulário marcado de movimentos”.

Na minha experiência de dançarina que apenas arrisca passos de dança ao som de músicas pop em alguns esparsos finais de semana, protegida pelo escudo do gelo seco e pelo nível etílico dos presentes, pergunto a Key se ela pratica alguma espécie de “ritual” para que essas influências venham à tona com fluidez no momento oportuno, nos ensaios ou em cena. Ela me responde: “É mais um trabalho de concentração. Como hoje está muito frio, talvez eu também faça aquecimentos. Mas, geralmente, é muito mais uma questão de concentração corporal que de aquecimento. Preciso estar presente para saber o que acontecerá em cada apresentação. É um mergulho. É muito intuitivo, pois trabalho com as imagens que vão aparecendo no momento. Também recorro deliberadamente a algumas imagens e questões que venho trabalhando, fazendo uma mescla. E desse encontro, surgem experiências. É assim também no nosso dia-a-dia. Em todos os meus trabalhos lido com questões do corpo, do tempo e do espaço. Podemos dilatar ou condensar o tempo, como uma brincadeira”.

Alguns momentos da apresentação transcorrem no silêncio. Como se ele nos puxasse para nosso recôndito interior, abrindo cortinas que dão acesso às nossas próprias memórias. Em outras vezes, no entanto, há sons que se desenrolam como cascatas, em progressões catárticas. São violões e percussão muitas vezes desejosos e impacientes. Então pergunto: “Qual foi seu envolvimento com a escolha da trilha sonora?”. Ela diz: “Na criação, é tudo meio misturado. Nesse trabalho, em especial, as coisas foram surgindo. Fomos experimentando. Não fui atrás de uma música específica que me remetesse a algum momento. Tínhamos um leque de possibilidades que experimentávamos durante os ensaios. Às vezes, tudo simplesmente faz sentido. Uma trilha em particular foi muito inspiradora para mim. Era a versão de uma música que escutei na trilha sonora de um filme do Win Wenders e tinha alguma relação com o Japão. Editamos, mas, no final, não usamos esse material. Ela me serviu de inspiração para muita coisa, mas não está na trilha. Tudo passa por um filtro calcado na nossa sensibilidade.”

A forma como cada um lida com seu corpo reflete as relações econômicas e sociais que se estabelecem na teia de pessoas e instituições em determinado período histórico. Quando é o momento em que o corpo deixa de ser apenas corpo e passa a ser também um pouco máquina? O coreógrafo Ivaldo Bertazzo afirmou certa vez que o movimento nos ajuda a racionalizar. A capacidade do ser humano de pensar vem de centenas de anos de experimentação motora. Redescobrir a motricidade e organizar os movimentos organiza também o cérebro e a percepção do mundo. Pergunto a Key se ela acredita que, hoje em dia, as pessoas lidam com seus corpos de uma forma mais consciente que no passado. Sua resposta foi: “Torço para que sim, mas o que percebi há um tempo foi certa distanciamento desses princípios. Há um culto exagerado ao corpo com o boom das academias de ginástica. Existe uma grande diferença na forma como as pessoas se vêem, os outros as vêem e como elas gostariam de ser vistas. É um fluxo que acontece mais de fora para dentro, que de dentro para fora. Vem de motivações estéticas e não da própria expressão”.

Pergunto a Key: “Você pretende despertar esse tipo de sensação em quem te assiste?”. Ela então me diz: “Quem sabe... Gosto de compartilhar essa experiência com o público. Tento deixar um espaço para que as pessoas possam entrar e sair do trabalho ou ligar suas próprias memórias às que apresento. Mexo com esse lugar delas. É sempre um diálogo.”

Entrevista: Déborah Motooka
Fotos: Déborah Motooka & Gu